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Laboratório da Fé

Na academia universitária, o Laboratório da Fé pretende ser um espaço de reflexão e de debate livre de questões éticas, morais e religiosas, num sentido ecuménico que possam contribuir positivamente para a formação e a conduta da pessoa humana, orientando-a para o Bem. Para publicar o seu texto e/ou pensamento, por favor envie uma mensagem para o correio electrónico da Capelania da UL.


Reflexão - Prof. António Bagão Félix
Ser em Fé

O que está para além da dúvida abre-nos para a fé.
Porque sem a dúvida a fé não existe.
Ou fingirá que existe, não subsistindo. 
É que ter fé não é encontrar, mas buscar.
Não é receber, mas dar.
E na busca e na doação não desfalecer na escuridão.
E na escuridão acreditar que a fé ilumina.
E na noite encontrar o espírito na paz do corpo.
E na luz ver a sincronia do bem, da verdade e da beleza.

Não se tem fé por se pensar possui-la. É-se em fé se, despojados, nos deixarmos possuir.
A fé não é a imposição mas a aceitação de não compreender.
E não compreendendo, sermos senhores de crer ou de não crer.
Em liberdade.

A mais pura expressão de fé é sabermo-nos pequenos. Insignificantes. Como a semente.
E na pequenez não termos pressa ou angústia de o deixarmos de ser.
Porque a fé não tem medida e exige paciência.
E na paciência está a maior prova de fé: o sacrifício da purificação.
E na purificação encontrar o Absoluto e menosprezar o relativo.
Porque a fé só é plena se o abandono for total.

Mas como despojarmo-nos de um qualquer nada que se transforma em tudo?
Como afastar o tudo relativo e buscar o Todo Absoluto?
Como encontrar a riqueza no deserto?
Como encontrar a consolação no deserto?
Como dizer não ao sim e sim ao não?
Como valorizar a morte para a vida?
Como alcançar um minuto que seja de quietude sem mácula?

Tem-se fé porque se resiste.
Resiste-se porque Ele ajuda.
Pedimos-Lhe ajuda porque somos fracos.
Somos fracos porque não renunciamos.

Buscamos a fé.
Caímos. Renunciamos. Levantamo-nos. Suplicamos. Queremos. Somos.
Por vezes saciados. Por vezes acorrentados. Por vezes afastados.
Na procura do sinal.
Onde já não há tempo, nem razão.
Mas apenas o que existe na não existência.
A essência.
A alma.

A fé é alegre mas não ri.
A fé é exigente mas não suplica.
A fé é poderosa mas não se usa.
A fé é compassiva mas não passiva.
A fé é inquietante mas não alienante.
A fé é o fermento mas não o condimento.
A fé é o sal mas não o açúcar.

A fé é a incerteza da certeza.
A fé é o testemunho da Palavra.
A fé é a continuação da Esperança.
E se a Esperança é a Luz, faço fé na fé.

A Fé não facilita. Dificulta.
Mas não destrói. Constrói.
Na amargura da nossa dor.
No temor do nosso sentimento.
Na obsessão da nossa procura.

E assim o fim se torna o princípio.
E no princípio está o silêncio.
A expressão sublime da fé.